Porque não há Jornalismo sem Responsabilidade Social

Se há algo que posso atestar sobre o caderno de ciências do jornal Folha de São Paulo é que o mesmo é deveras consistente. Consistentemente ruim. Se o leitor me permite uma pequena digressão, devo dizer que o fato de que um jornal de tão grande circulação no país consegue a proeza de sempre conter informações enganosas quando reporta alguma notícia da física foi um dos fatores que nos incentivou a começar esse blog. É nossa esperança que possamos passar alguma informação sobre ciência que seja ao mesmo tempo clara e livre de erros.

Mas por que estaria eu falando sobre isso ao invés de falar sobre a física? Seria eu apenas uma pessoa revoltada aproveitando o espaço para desabafar com desconhecidos expondo minha mediocridade? Talvez. Mas também porque hoje o supracitado jornal publicou o seguinte artigo, que resumidamente diz que um pesquisador da USP tem explorado um indício de que a “partícula de Deus” encontrada em julho deste ano no LHC não seria exatamente aquela  contida no Modelo Padrão da física de partículas.

Há dois erros na matéria. O primeiro é que esse indício de comportamento anômalo apareceu quando da descoberta do Boson em julho deste ano, mas na verdade é um efeito insignificante. Para ser preciso tais discrepâncias são lugar comum na física e normalmente são produto de termos poucos dados. Uma vez melhor investigado é usual que esse tipo de comportamento estranho suma. Entenda, essa não é a minha opinião, mas sim a declaração do diretor do CERN quando indagado sobre tal discrepância na coletiva de imprensa que seguiu o anúncio oficial da descoberta. Hoje, no melhor do nosso etendimento, a partícula descoberta é o Boson de Higgs e nada mais.

Em segundo lugar, e muito mais crítico, é a utilização do termo “partícula de Deus”. Como já explicamos aqui esse termo provém do título de um livro de divulgação e foi escolhido apenas para aumentar sua venda. Porém ele nunca é utilizado pelos físicos, e por um bom motivo. É óbvio para qualquer pessoa que esse termo pode ser considerado ofensivo, ou até mesmo como pretensioso por parte dos cientistas que estariam tentando suplantar a religião.

Asseguro que esse não é o caso, e que a infelicidade da alcunha “partícula de Deus” é muito sentida por nós dado que ela aparentemente só tem utilidade para criar um conflito desnecessário. Exatamente por isso que é extremamente irresponsável que a mídia continue a usá-lo. É dever do jornalista não apenas fornecer a informação correta, no limite de seu conhecimento, como também usar judiciosamente da palavra para não criar desentendimento na população, desentendimento esse que põe em conflito setores da sociedade que não tem motivo algum para estar em oposição.

Para compor ainda mais a desgraça a Folha ainda faz questão de afimar que o termo “partícula de Deus” teria surgido por analogia ao fato de que o Boson de Higgs fornece diferentes massas às diferentes partículas do mesmo modo que Deus teria forçado distintas línguas aos construtores da torre de Babel. Informação essa que espero que você já saiba estar incorreta, algo que pode ser verificado até mesmo na Wikipedia. Perceba, jornalismo sub-wikipediano também demonstra irresponsabilidade.

Esse erro inclusive já estava presente quando o mesmo veículo noticiou a descoberta do Bóson de Higgs. Erro que tentamos corrigir com o seguinte email para o Ombudsman

Caro Ombudsman,
Escrevo em resposta ao artigo http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1114836-entenda-o-que-deus-tem-a-ver-com-o-boson-de-higgs.shtml, publicado na Folha Ciência no dia 04/07/12. O artigo refere-se ao bóson de Higgs, mais conhecido na mídia como “partícula de Deus”. Vejo a importância da cobertura de um evento tão significativo na história da física (e também da humanidade), mas informações errôneas levadas ao publico leigo só servem para deteriorar a imagem de toda uma geração de cientistas que trabalharam arduamente no estudo e na busca dessa partícula, assim como no desenvolvimento da ciência em geral.

Em primeiro lugar, com relação história da alcunha “partícula de Deus”, uma busca rápida do verbete pela internet nos leva à informação de que o nome veio de um livro escrito pelo vencedor do prêmio Nobel Leon Lederman sobre tal partícula. O título original seria “The Goddamm Particle”, isto é, “A Partícula Maldita”. Esse nome seria uma brincadeira do físico devido ao fato do bóson de Higgs ser uma partícula tão importante para o entendimento do universo e ao mesmo tempo tão difícil de ser encontrada experimentalmente. Porém, o editor achou que o título era ofensivo e que pudesse prejudicar a venda do livro e resolveu mudá-lo para “The God Particle” ou “A Partícula de Deus”. O nome acabou sendo reconhecido pela imprensa e usado impunemente. Sua relação com qualquer coisa espiritual, mística ou religiosa não passa da criação de pessoas desinformadas sobre o assunto. Qualquer um que busque uma fonte confiável – como as fontes oficiais do experimento – verá que tal alcunha nunca foi utilizada.

É preocupante que tal engano por parte do autor já tenha se propagado na internet, a saber tal artigo já é citado na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/B%C3%B3son_de_Higgs) em referência justamente para a origem da expressão “partícula de Deus” que foi apurada equivocadamente. É nossa opinião que em uma sociedade onde a religião e a ciência são erroneamente postas em oposição tal erro por parte da reportagem é extermamente prejudicial para a imagem da ciência frente ao público. Enfatizamos que a expressão “partícula de Deus” não surgiu por deboche e nem por esta ter qualquer papel análogo ao aribuído a Deus, mas sim para aumentar as vendas de um livro. O editor cometeu um erro por não pensar nas consequências de tal título, o autor cometeu o erro de não vetar tal imposição a sua obra, mas os jornalistas de todo o mundo cometem o erro de continuar a usar essa expressão que serve apenas para gerar tensão desnecessária na nossa sociedade.
Outro ponto é o número 6 do infográfico que diz que dependendo do que for medido nos canais de decaimento, talvez o bóson de Higgs seja uma “miragem”. O que deve ser ressaltado é que o bóson de Higgs foi medido, existe e está confirmado. A dúvida que ainda não foi esclarecida é se o bóson de Higgs que foi medido é exatamente o previsto pelo Modelo Padrão das partículas elementares (tal modelo é o mais completo sobre a descrição de partículas mas ainda sim possui problemas não solucionados pelos físicos). Dependendo das propriedades que forem medidas isso pode mostrar que ele é um bóson de Higgs de outro modelo teórico, que possui propriedades diferentes mas contínua tendo a mesma “função” de dar massa para todas as partículas. O que ele certamente ele não é, é uma “miragem”!
Ambos os erros poderiam ser evitados consultando o canal oficial do CERN para o público leigo (http://public.web.cern.ch/public/)  ou o press-release do anúncio da descoberta do bóson de Higgs (http://press.web.cern.ch/press/PressReleases/Releases2012/PR17.12E.html) que fornecem informações corretas sem os detalhes técnicos. Note ainda que o Instituto de Física Teórica da UNESP, onde trabalham pessoas envolvidas no experimento , se localiza a 8 minutos de carro da sede da Folha de S. Paulo. É a espectativa dos leitores desse jornal que o mesmo consulte especialistas antes de noticiar a maior descoberta da física de partículas dos últimos 30 anos envolvendo um experimento de custo estimado de  7.5 bilhões de Euros e que tem participação de pesquisadores brasileiros.Como complemento da matéria gostaríamos de citar informações da conferência de imprensa do experimento (https://www.youtube.com/watch?v=AzX0dwbY4Yk) onde foi citado que as companhias privadas que financiaram o experimento tiveram um retorno maior que 400% da verba investida, sem contar a liderança no mercado de tecnologia. Assim apesar do custo astronômico de tal empreitada fica claro que essa descoberta não foi um custo, mas sim um investimento para os governos que dela participaram, principalmente quando levamos em conta a formação humana dos pesquisadores envolvidos. Cabe notar também que a World Wide Web surgiu neste mesmo laboratório para permitir a comunicação e compartilhamento de dados entre pesquisadores de várias nações. É vexatório que o governo brasileiro tenha furtado do povo a participação em tal descoberta, fora um número pequeno de pesquisadores.
Assim renovamos nossas esperanças de que um dos jornais de maior circulação no país faça um jornalismo científico responsável, no sentido em que apure corretamente as informações fornecidas, que entenda a importância da escolha das expressões no desenvolvimento da sociedade e que se preocupe não apenas em dar a notícia mas em explicar de que modo ela é relevante para cada cidadão nesse país.
Camila Sampaio Machado / César Augustus Uliana Lima

Não sair da redação, andar cinco minutos, pegar o metrô na Santa Cecília e andar duas estações até a Barra Funda para consultar um especialista também é jornalismo irresponsável. Mas segundo a resposta que recebemos a informação havia sido corretamente apurada.

Agora, se você chegou até aqui devo lhe pedir desculpas. O texto foi demasiadamente longo e certamente está maçante. Apenas quis destinar um momento para deixar claro o quão a ciência carece de um jornalismo que não é apenas preciso mas que também está ciente da sua responsabilidade para com a sociedade. E para atestar que não são de hoje as falhas da Folha, você pode ver o artigo tragi-cômico escrito em dezembro do útlimo ano sobre o Higgs, bem como a nossa resposta que na ocasião foi publicada. Publicação pela qual somos encarecidamente gratos à Folha de São Paulo.

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