Sobre a Importância do Jornalismo (científico) para a Sociedade

Na semana passada escrevi sobre o péssimo trabalho do pessoal do caderno de ciências da Folha. Como foi apontado pelos outros editores do truesingularity e por um leitor eu acabei pegando pesado nas críticas e gostaria de esclarecer algumas coisa, bem como expandir na discussão sobre o jornalismo e a ciência.

A útilma reportagem da Folha sobre o bóson de Higgs continha algumas imprecisões de caráter científico. Uma delas envolvia uma informação incorreta e a segunda uma falta de acurácia em explicar a relevância de certas discrepâncias no Higgs visto no LHC. Perceba, por mais que a precisão seja uma das responsaibilidades de um jornalista, falhas ocorrem. A pressão interna dentro da redação para cumprir prazos e metas certamente contribui. E devemos dar um desconto aos profissionais por eventuais deslizes, que dado a internet são perfeitamente corrigíveis por leitores mais atentos. Há de se ter uma tolerância com pessoas que exercem seu trabalho sob pressão, e certamente os jornalistas se enquadram nessa classe.

Isso posto, vamos á questão central. O hábito de uma parte da mídia de grande porte de usar o termo “partícula de Deus”. Ao ler o comentários das matérias a que me referi no post anterior fica claro que a maior parte deles concerne um debate entre a ciência e a religião. Em especial os comentários mais votados todos concernem a “prepotência” dos físicos que tentam eliminar Deus e suplantar a sua necessidade.

O jornalismo, a incumbência de transmitir informações para as pessoas, é certamente uma das profissões mais importantes, eu diria até indispensáveis, para o bom funcionamento de uma sociedade moderna. É exatamente por isso que a liberdade de imprensa é um assunto recorrente. É pelo mesmo motivo que desde o século XIX a imprensa vem sido chamada de “quarto poder” em diversos contextos. Algo que pode ser exemplificado pelo papel decisivo que a mesma teve durante a revolução francesa e em movimentos sociais nos últimos 200 anos.

Nesse sentido que fica clara a relevância da ética para os profissionais da área. Dado o poder da imprensa como construtora da sociedade é importante que a mesma reflita sobre o modo como atua. A prima facie um ponto essencial é a acurácia das informações passadas. De outro modo a o erro propagado pode formar opiniões enganosas que certamente não rendem bons frutos. Vide a manipulação e a propaganda dos estados fascistas do século XX. E perceba que incluo a omissão na mesma categoria da imprecisão no que tange o seu potencial deletério.

Porém uma reflexão sobre a necessidade de passar informações corretas logo nos leva a uma indagação diferente. Não existem crivos absolutos para algo ser certo ou errado. E nesse instante entra o julgamento do jornalista. O julgamento interno do jornalista sobre o modo como ele exerce sua profissão é o ponto mais sutil e ao mesmo tempo o mais importante da ética. É óbvio que se não podemos ter certeza que algo é correto, então nos cabe refletir sobre como iremos comunicar uma informação. Esse é o momento em que se faz a reflexão do impacto não apenas da notícia mas do seu relato para a sociedade.

E a ciência? A ciência é uma parte do conhecimento que estuda o mundo conforme podemos nos relacionar com ele. Desse modo ela é parte integrante da nossa cultura, e todos temos interesse nela. Agora quando a mídia escreve sobre a “partícula de Deus”, independetemente da correção da informação segundo a física, ela automaticamente está sendo irresponsável porque o termo sugere que os físicos tem algo a dizer sobre Deus, o que não poderia ser mais enganoso.

A questão reside no fato de que a religião também integra a sociedade, e devemos entender que a ciência não se opõe a ela (e nem a favorece), portanto não deve haver conflito entre elas. Porém quando falamos na “partícula de Deus” estamos afastando uma parte da sociedade da descoberta científica, estamos alienando parte da população. Um jornalista que assim procede está indo contra o propósito da sua atividade. E mais, está alimentando um conflito nocivo e desnecessário que hoje atinge a todos.

O julgamento não só sobre o que é relevante mas também sobre o modo que se irá discutir dado assunto é o que chamei de responsabilidade social do jornalismo no post anterior. Esse julgamento que falta da redação do caderno de ciências da Folha, que não só não cumpre o objetivo de informar seus leitores sobre ciência como também irresponsavelmente escreve para atrair o maior número de leitores independentemente das implicações que isso possa gerar.

O ponto desse artigo é colocar que a ciência é uma parte integrante da nossa sociedade, como a política, economia, as artes, etc. Por esse motivo é importante que os jornalistas que cobrem a ciência entendam a sua relevância e que busquem fazer seu trabalho com julgamento crítico e, é claro, responsabilidade.

PS: Um jornalista que cobre ciência chamado Jonah Lehrer pediu demissão do jornal The New Yorker após revelarem que ele inventou citações do Bob Dylan em um de seus livros sobre neurociências. Incidentalmente o livro está repleto de erros científicos que ele teria feito para tornar mais atraente a leitura. Inclusive artigos do cidadão na Nature continham erros factuais primários. Mas a despeito de todos os erros sobre ciência que o jornalista tenha cometido foi citar erroneamente Bob Dylan que o derrubou…

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