Falseabilidade e Falsidades em Filosofia das Ciências

Existe uma frase atribuída ao físico Richard Feynman que diz “a filosofia das ciências é tão útil ao cientista quanto a ornitologia é para um pássaro”. Pra que fique claro, isso é mentira. Não a frase, mas a atribuição. Em nenhum lugar está registrado isto. Mas não significa que isso não mereça uma reflexão.

No final do século XIX havia uma tradição filosófica (conhecida como postivismo) que advogava a ciência como superior a outros empreendimentos intelectuais humanos pois essa é baseada em hipóteses que podemos provar. Então um sujeito chamado Karl Popper mostrou que isso não faz sentido. Isto é, a capacidade de provar afirmações não pode ser um crivo para a ciência porque não dá pra provar uma afirmação em geral.

Karl Popper

Como assim? Bom, pegue uma régua e uma borracha. Vai lá meça o comprimento da borracha. Deu 5 centímetros. Mas como você sabe que não são 5,00001 centímetros? Óbvio que não dá pra saber, você não vai conseguir medir um tamanho menor que uns 2 milímetros com uma régua. Mas é claro que por outro lado você sabe que não tem 5 metros. Esse é o ponto do Popper. Sempre que testamos uma afirmação nunca podemos dizer que ela está correta porque os intrumentos com os quais fazemos um experimento tem limitações de resolução. Assim é impossível dizer que o experimento bateu com a teoria exatamente porque a teoria cospe um número mas o experimento tem incertezas. Por outro lado podemos afirmar que o experimento não bateu com a teoria, afinal não importa a imprecisão da régua eu consigo medi-la e mostrar que o comprimento não é 5 metros.

Com isso na cabeça o Popper propôs uma nova visão da ciência, não como aquilo que versa sobre afirmações que podemos confirmar, mas sim aquela que versa sobre afirmações que podemos refutar. Essa característica é conhecida como falseabilidade. Assim “todas as ovelhas são brancas” é uma afirmação científica, se um dia eu achar uma de outra cor mostro que tá errado. “Existem fantasmas” não é uma afirmação científica porque não tem como provar que fantasmas não existem. De modo resumido, a ciência deve ser feita de afirmações que podemos refutar através de experimentos. Isso garante que a discussão pode ser decidida. Se você disser pra mim que tem uma teoria sensacional para o Higgs eu vou te perguntar como testar ela. Se existir um experimento que possa te refutar eu digo que é ciência. Agora se toda vez que a teoria não bater com um experimento você me disser que a teoria permite outras possibilidades, aí não é ciência, e sim você dando desculpinhas. Genial né? Pena que tá errado. Mas muito errado.

Vou dar dois exemplos. Primeiro de uma afirmação científica impossível de ser refutada (ou confirmada). Ano passado Brian Schmidt, Adam Riess e Saul Perlmutter ganharam o Prêmio Nobel por descobrir que o universo está se expandindo aceleradamente. Isso é muito surpreendente pois, como qualquer livro de cosmologia vai te dizer, se o universo tivesse muito mais massa do que ele tem a força gravitacional seria maior a ponto de atrair tudo e frear a expansão. Leia de novo com cuidado a afirmação em itálico. Se o universo não fosse o que ele é. É bem óbvio que não dá pra testar uma afirmação sobre um universo que não é o nosso. Ainda assim cosmologia é uma parte bem estabelecida da física.

A evolução do universo. No final vemos a fase atual de expansão acelerada.

Tá bom, pode até ser que tenham algumas afirmações nas ciências que não são falseáveis. Mas certamente se uma afirmação é testável então é científica não é? Ok então, vamos falar sobre escatologia. A escatologia é uma parte das religiões que diz o que vai acontecer no fim dos tempos. Tipo o Livro do Apocalipse (na verdade é Revelação de São João, mas você não quer saber do meu catecismo né?). Pra ser definitivo, vou falar da escatologia judaica. Segundo o Livro de Isaias no fim de tudo todas as pessoas vão acreditar em Deus e os mortos retornarão a terra. Perfeito, então se um dia me disserem que está acontecendo o fim dos tempos, de acordo com o judaísmo eu vou falar o seguinte: faz uma enquete com todas as pessoas do mundo, todas viraram judias? Além disso você falou com o meu avô? Como você vê, são afirmações bem passíveis de refutação.

O Livro de Isaias

Espero ter convencido você de que falseabilidade não é uma questão necessária nem suficiente para a ciência. Então o Popper estava errado? Não é tão simples, ele foi importante por colocar a questão que a ciência nunca prova nada absolutamente. Tudo depende das incertezas que envolvem o experimento (vide os dramas dos sigmas do Higgs). O ponto dos filósofos posteriores ao Popper é que os cientistas não se apegam  a essa questão pra fazer ciência. Se a minha teoria que sempre funcionou de repente não bate com um experimento eu não jogo ela fora, eu penso melhor pra ter certeza que fiz o experimento certo. Só depois da teoria se mostrar inconsistente com muitos fatos é que procuramos uma nova. Tem uma questão de que a ciência é um empreendimento humano e temos que levar isso em consideração quando queremos dizer o que é ciência. Esse é o ponto levantado por pessoas como Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, embora eu não concorde inteiramente com a obra deles.

Então a citação no Feynman tem razão, filosofia é inútil para o cientista? Talvez, mas isso ignora a questão de que a filosofia não precisa ser útil. Esse não é o objetivo dela, ensinar o cientista a fazer ciência. A filosofia é sobre entender a ciência, tem os seus próprios méritos. A diferença é que eu não preciso dos filósofos pra me dizer se faço ou não ciência da mesma forma que eu não preciso de um psicólogo pra me dizer se estou ou não apaixonado por uma mulher. Quem está, sempre sabe. Entende?

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