E no entanto ela se move

Você sabe que a Terra gira ao redor do Sol né? Sabe nada, você engole isso sem nunca ninguém ter dado um argumento convincente porque isso deveria ser verdade. O que você também sabe é que em 1636 um tal de Galileo Galilei, que defendia em um livro a hipótese heliocêntrica, foi forçado a renegar o seu trabalho pela Inquisição. É claro que a Inquisição era um bando de malucos religiosos que não queriam que as pessoas questionassem a Bíblia como fonte única de conhecimento, e forçaram o Galileo lá a morrer poucos menos de 10 anos depois do julgamento em completo isolamento. E é claro que você nunca questionou isso também.

Ninguém espera a Inquisição (de fato) ser uma instituição razoável, mas é claro que eles não eram estúpidos. Em particular, sabiam que não havia nenhum problema com as escrituras e o heliocêntrismo porque no século XIIII Nicole Oresme havia escrito um livro explicando de que modo a Terra girar ao redor do Sol não contraria a Bíblia, uma tese de tanta excelência que ele foi nominado bispo em reconhecimento. O problema do Galileo era pessoal com o Papa e por isso ele se deu mal, mas o que ninguém conta é que uma dos argumentos que acabaram com ele no julgamento era científico.

Suponha que você está andando na rua e do outro lado estão duas mulheres bonitas paradas conversando. Quando você vai dar uma olhada nelas percebe uma coisa engraçada, é mais fácil prestar atenção na que está mais distante do que na que está mais perto. Isso porque conforme você anda a imagem das duas se desloca, e a quanto mais distante mais devagar é esse movimento aparente. Esse deslocamento de uma imagem quando vista de várias posições diferentes é chamado paralaxe.

Posição relativa de uma determinada estrela (em vermelho) em relação a estrelas distantes (em branco) quando vista ao longo de um ano da Terra.

Agora troque as mulheres bonitas por estrelas (como eu sou bobo) e você andando na rua pelo movimento da Terra ao redor do Sol. Então pelo mesmo raciocínio conforme a Terra se movimenta deve haver um pequeno deslocamento nas estrelas mais próximas em relação as mais distantes, a paralaxe estelar. O problema do Galileo é que o inquisidor se deu ao trabalho de pegar um telescópio para observar a paralaxe estelar mas não viu nada. E a conclusão mais lógica era então de que a Terra havia de estar parada.

O chato pro Galileo é que os telescópios da época eram muito imprecisos e não conseguiam detectar a paralaxe. Foi só em 1838, mais de 200 anos depois do julgamento, que Friedrich Bessel mediu pela primeira vez a paralaxe de uma estrela vindicando o velho Galileo. Hoje medindo o ângulo máximo da paralaxe e conhecendo a distância da Terra ao Sol podemos usar trigonometria básica para calcular a distância da Terra a uma estrela, e daí que as pessoas tiram aquela conversa de “não-sei-o-que está a 98393 anos-luz da gente” (na verdade a medida da paralaxe dá a distância em “parsecs” que depois é convertido em anos-luz, mas o importante é que esse é um instrumento para medir distância até estrelas sem sair daqui) .

O engraçado é que durante 200 anos as pessoas iam fazendo telescópios mais precisos e nunca achando a maldita paralaxe só restava dizer que as estrelas estavam cada vez mais distantes da Terra do que se achava. Curiosamente uma coisa similar acontece hoje. Algumas pessoas acham que ter encontrado o Bóson de Higgs não é o fim, que tem mais a ser descoberto, porém nunca encontrando nada só resta a essa pessoas acreditar que as partículas desconhecidas precisam de mais e mais energia para serem geradas. Só nos resta esperar qua a solução dessa novela não precise de mais 200 anos.

PS: Para quem acompanhou um post sobre o Popper e falseabilidade, o caso do Galileo é um exemplo típico de porque não devemos levar o Popper a sério. Existiam duas teorias incompatíveis, o geocentrismo e o heliocentrismo, mas um deles não estava de acordo com os experimentos e era corrigido sempre posteriormente. Mas abandonamos a teoria que concordava com o experimento e ficamos com uma sem confirmação por 200 anos. Isso ilustra que o cientista não pensa como o Popper, mas sim que tem muitos motivos distintos para levar uma teoria a sério que nem sempre passam pelo experimento.

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