Ciência x Pseudociência

Eu tento com todas as minhas forças não me irritar quando vejo algum charlatão espalhando pseudociência por aí, mas realmente não consigo. E uma coisa que me deixa tão irritada quanto a existência deles é o número de seguidores.

Veja, com as facilidades da internet podemos escrever um texto e torná-lo público sem muito esforço. Porém, nossa experiência com esse blog nos mostra a dificuldade de interessar e atingir o público. Para publicar um texto nos preocupamos se não estamos cometendo nenhum erro conceitual, se as fontes são fidedignas e se o texto é de fácil compreensão. Sem dúvidas cometemos erros no meio do caminho mas o objetivo é divulgar a ciência de forma genuína. Quando vejo um blog de pseudociência procuro olhar informações sobre o autor e referências nos textos. Em geral, ambas são precárias, porém o volume de textos é absurdo. E de comentário. E de acessos.

pseudo03

Olho para este cenário e vejo uma disputa desleal entre ciência e pseudociência. É fácil fazer títulos sensacionalistas e escrever muitos textos rapidamente quando não se tem compromisso com nada. É fácil convencer as pessoas explorando a falta de conhecimento no assunto e fingindo uma explicação científica inteligente usando palavras rebuscadas. A ciência, por outro lado, é árdua. A construção do conhecimento é lenta, feita em etapas e o compromisso com o método científico existe para minimizar erros.

O cenário de hoje consiste na existência de cada vez mais blogs/cursos de pseudociência com um número grande de seguidores, contra poucos blogs divulgando ciência com qualidade (e enfrentando os charlatões) atraindo poucas pessoas. Porquê chegamos neste ponto? Como reverter a situação?

Uma das atitudes que falta hoje é assumirmos uma postura de questionamento. Hollywood nos acostumou tanto com todo tipo de coisa que usa a ciência como desculpa para qualquer coisa sensacional, como zumbis vindo de vírus ou armas de laser, que esquecemos que o mundo real não funciona assim. Além disso com a internet temos acesso a milhares de coisas quase instantaneamente e estamos o tempo todo sendo bombardeados por informações novas. É como assistir o último filme do Batman e esquecer que uma bomba atômica não só explode as coisas como joga radiação na atmosfera, então é uma péssima ideia correr com ela na direção no mar e matar toda a vida marinha da região e jogar os dejetos radioativos na atmosfera fazendo chover isótopos em Gotham. Mas no mundo de verdade não tem Bruce Wayne. A não ser que você já seja uma pessoa realmente crítica ou que seja algo realmente absurdo, não paramos para pensar, nos tornamos esponjas absorvendo qualquer informação.

spongebob

Por exemplo, você que está lendo este blog, procurou saber se as pessoas que escrevem aqui são minimamente qualificadas para falar sobre os temas? Você procura as referências que aparecem nos textos?

Estas perguntas são algumas medidas que podemos tomar mas não são suficientes. Aí entra a parte mais difícil: separar ciência de enganação. Perceba que eu posso chegar aqui e fundar uma organização que acredita nos poderes mágicos do “Pônei Alado Colorido de Rabo Dourado”. Posso ter seguidores e escrever sobre o assunto e você pode acreditar ou não. Isso é fé e faz parte da nossa cultura procurar explicações para o que não entendemos ou não vemos. Mas a partir do momento que eu digo que a ciência provou a existência do “Pônei (…)” e que os poderes dele são explicados pela Física Quântica, ou eu mostro aonde isso está demonstrado ou sou um vigarista (tipo o Dick). Passei a usar algo bem estabelecido e fundamentado para explicar o que é apenas especulativo só porque as palavras são complicadas e você não vai entender. Para fazer a ponte posso usar argumentos ilógicos e crio uma teoria que não é nem aqui nem em qualquer dimensão, auto-consistente. Mas eu posso fazer esta ponte tão complexa quanto eu queria, afinal abri mão do método científico e com isso, crio uma estória infundada e que acaba por convencer as pessoas uma vez que elas não entendem. Cria-se a ilusão de que o difícil e complexo deve ser verdadeiro e científico.

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Cruzando a linha da alquimia para a química.
“Você transformou chumbo em ouro? Bom. Faça de novo, escreva uma descrição detalhada de como você fez isso, e submeta isso para a revisão por pares.” (Cartoon de S. Harris)

Esta atitude está por trás da pseudociência e a torna tão popular. Devemos aprender a questionar antes de aceitar. É tão fácil acessar um texto científico quanto o de um charlatão querendo pegar seu dinheiro. A escolha é sua. 

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