O que esperar para 2013 da “Big Science”

Em conformidade com o já estabelecido fato de que no Brasil nada funciona antes do carnaval, estou fazendo o primeiro post do ano só hoje. É claro que se me perguntarem eu vou por a culpa na defesa do meu mestrado e em várias outras coisas, você sabe como é.

Enfim, 2012 foi o ano do Higgs e blá-blá-blá. Isso é passado e, como torcedores de times sem história gostam de frisar, quem vive de passado é museu. Com o LHC fechado para manutenção até 2015, o que esperar desse ano? Para deixar claro, existe todo tipo de física sendo feita pelo mundo, e não faço idéia do cenário geral. Eu quero falar aqui do que esperar da “Big Science”.

Entenda, quando o Rutherford descobriu que os átomos eram feitos de núcleos cercados de uma núvem eletrônica em 1909 ele fez isso num laboratório pequeno com a ajuda de dois pós-docs e usando um experimento de alguns metros de tamanho. De lá para cá entender as coisas em escalas cada vez menores passou a envolver equipamentos maiores, mais caros e colaborações de milhares de pessoas. Assim os governos tiveram que se envolver mais diretamente no financiamento e coordenação de certos experimentos, do Projeto Manhattan até o CERN. Essa forma de fazer ciência em larga escala é chamada de “Big Science” por motivos um bocado óbvios. A física de partículas em particular (desculpe) virou “vítima” da necessidade de energias altas e experimentos gigantescos de modo a ser o protótipo desse tipo de atividade.

fonte: theatlantic

Então, o que esperar? No Fermilab, o laboratório americano que operava o Tevatron, vai começar a funcionar esse ano o NOvA, um experimento para entender melhor as oscilações dos neutrinos. Mas de longe a palavra de ordem desse ano é Matéria Escura. O LUX, um experimento para detectar as supostas partículas da matéria escura, deve começar a tomar dados ainda no primeiro semestre do ano. Junto com os outros experimentos similares já existentes todo mundo ele deve procurar um sinal visto pelo satélite Fermi que sugere que alguma coisa com massa de 130 GeVs teria sido observada no centro das galáxias. Se eu não estou explicando melhor é porque eu aposto que não deve sair nada muito impressionante esse ano, no máximo vão mostrar que o Fermi está errado e não tem nada ali. Mas o ano vai ser cheio de notícias de que não encontraram nada nos experimentos, então…Um outro big shot do ano é o satélide Planck que vai trazer os dados mais precisos sobre a Radiação Cósmica de Fundo. Essa radiação contém muita informação sobre a estrutura do Universo a uns bilhões de anos atrás (não lembro o tempo certo) e vai informar os dados mais precisos sobre a razão entre matéria normal e escura, além de ser sensível a presença de mais tipos de neutrinos que os conhecidos. Ao longo do ano vamos ver se conseguimos ir explicando um pouco melhor sobre cada uma dessas coisas.

Ainda sobre “Big Science”, a situação financeira americana já está afetando alguns experimentos. Em particular os EUA tem 2 grandes experimentos em física nuclear atuantes hoje, o RHIC – que estuda o plasma de quarks e gluons – e o CEBAF -que está passando por um upgrade para estudar a estrutura dos prótons. Além disso existe o projeto de construir um novo experimento, o FRIB, que quer produzir isótopos raros de elementos pesados. Só que com o orçamento atual não dá para manter os dois experimentos existentes e construir o terceiro. E como já estão previstos cortes de todo o tipo é possível que o RHIC seja descontinuado para dar lugar o FRIB (que acrônimos horríveis esses). O RHIC em particular volta a coletar dados após uma pausa de manutenção, e deve funcionar até Março com o futuro a ser decidido pelo orçamento americano a ser aprovado.

Aproveitando o “Big Science”, o Fermilab fez um documentário de 40 minutos muito bom sobre o laboratório que você pode conferir aqui (sem legendas infelizmente).

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