‘Mas você trabalha ou só estuda?’

Esses dias estava olhando na estatística de busca que fazem as pessoas pararem aqui no blog e entre frases as mais procuradas estão ‘quanto ganha um físico teórico’ e ‘o que faz um físico teórico’. E pra ser sincera, é a mesma pergunta que a minha família e amigos me fazem, além da famosa ‘mas você só estuda? quando vai começar a trabalhar?’

Motivada por isso, resolvi escrever sobre como é a vida de quem deseja seguir uma carreira acadêmica. E se depois disso alguém disser que minha vida é fácil ou perguntar quando eu começo a trabalhar sofrerá as consequências de me ver indo pro lado negro da força.

"I find your lack of faith disturbing."

Fiz física só pra construir um sabre de luz.

O caminho para a carreira acadêmica começa com a graduação em física e ela vai ser sua primeira decepção nesse mundo. Todo mundo entra esperando aprender sobre o universo, buracos negros, partículas e todas essas coisas que as pessoas pensam quando falamos em física. Mas ao contrário disso, você vai passar grande parte da sua graduação fazendo cursos de matemática. Uma coisa está ligada a outra e você só vai conseguir entender a física se souber a matemática direito. Então, depois de cálculo I , II, III e IV, álgebra linear, física matemática I e II, você vai começar a aprender o que estava esperando (ou não). Mas a verdade é que no final da graduação você só vai saber as coisas que não sabe. E aí vem a escolha de fazer um mestrado.

Nesse ponto, essa não é sua única opção. Hoje em dia é muito fácil encontrar físicos trabalhando em bancos, consultorias e áreas aplicadas na indústria. Porém, se você quer seguir carreira acadêmica não tem como escapar de fazer a pós-graduação. O mestrado eu vejo mais como uma fase de amadurecimento. Você vai descobrir o que você gosta e o que você não gosta e como funciona o trabalho de pesquisador. No doutorado você já vai ter uma visão um pouco mais geral das áreas e de que caminhos você pode seguir.

Na prática, a coisa funciona assim. Você faz uma prova para ingressar na pós-graduação e pode pedir o auxílio de uma bolsa de estudos*. Com ela você não vai poder trabalhar (existem algumas regras e horas máximas por semana) pois ela funciona no regime de dedicação exclusiva. Se você vai receber ou não depende do seu rendimento acadêmico na graduação, do seu orientador e do seu projeto. A partir daí você tem 2 anos de bolsa pra fazer o mestrado.  No primeiro ano as pessoas se dedicam basicamente a cursar as disciplinas obrigatórias e as que serão importantes no seu projeto de pesquisa. No segundo ano, as pessoas se dedicam mais a pesquisa e é nesse ponto que entra o “tornar-se um pesquisador”. Não é só estudar, mas você precisa participar de grupos de discussões, assistir seminários (muitos!), ir a congressos etc. Falando por mim, eu fiz tudo isso e eu não entendia nada do que as pessoas estavam falando, era frustrante e eu ficava pensando “porque meu orientador me mandou aqui? sou a pessoa mais burra desse lugar!”. Mas no final percebi que naquele ponto não era uma questão de absorver informações e sim de entender como as coisas funcionam.

No doutorado você já vai ter mais conhecimento e mais liberdade para tomar suas decisões. Lógico, o processo de aprendizagem continua, mas ao poucos você vai ganhando conhecimento para participar mais ativamente das coisas. Por outro lado, você vai ter mais cobranças e responsabilidades. Prazo para terminar artigos, seminários para apresentar e congressos que agora você tem que ir pensando em divulgar seu trabalho e fazer contatos.

Depois de 4 anos de doutorado (é o tempo de duração da bolsa), acredite ou não, você ainda não tem nenhuma chance de passar em um concurso em uma boa universidade. O negócio é fazer mais alguns pós-doutorados. Que é só uma coisa que inventaram para não deixar quem tem doutorado morrer de fome. Durante esse período as pessoas escrevem artigos loucamente para quando prestarem o concurso impressionarem a galera e terem uma boa chance de passar.

Não entrei em detalhes de como funciona o dia-a-dia de um físico, mas quis passar uma ideia do caminho mais ou menos certo que as pessoas percorrem para ter uma carreira acadêmica. Resumindo: são 4 anos de graduação, 2 anos de mestrado, 4 anos de doutorado, tempo indeterminado (~4 anos) de pós-doutorado daí você vai tentar passar num concurso e virar professor/pesquisador em alguma boa universidade. E é só aí que as pessoas vão acreditar que você trabalha…

* A maior parte das bolsas vem da Capes, CNPq e Fapesp (em São Paulo). Para o mestrado as bolsas estão em média R$1500 no mestrado,  R$2500 no doutorado e R$5500 no pós-doutorado e é independente da área de pesquisa.

Ótimo vídeo sobre o assunto:

 

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