Publicar, perecer ou entrar no mercado negro chinês

Uma das coisas que sempre me atraiu em ser cientista foi o fato de podermos usar nossa criatividade para explorar novos territórios, pensar diferente e dentro disto traçar nosso próprio caminho. Em linhas práticas, sempre achei fascinante começar a estudar um problema interessante sem saber se vou achar a solução. Ter liberdade para pensar, criar e aprender. Apesar de não ter uma garantia do resultado final, sempre ter ideias novas no meio do caminho e que aumentam nosso conhecimento.

Mas a realidade é bem diferente e temos diversas restrições que impedem esse cenário ideal. A verdade é que a ciência se afastou do que seria essa visão “criativa” e liberal e se aproximou do que seria um “negócio”, muito mais inflexível.  O resultado? fraudes, esquemas, mercado ilegal de autoria de trabalhos e citações. O que está por trás disso é o fato da política do publish or perish – que tentarei explorar nesse texto – estar tomando proporções cada vez maiores e afetando cada vez mais como a ciência é feita e como evolui.

Primeiro, o que significa publish or perish? Essa expressão foi criada na década de 50 e refere-se a pressão em publicar artigos para se manter na vida acadêmica. A ideia é simples: quem publica muitos artigos tem sucesso. Aí você tá se perguntando, “poxa, esses cientistas não fazem nada, o mínimo que eles tem que fazer é escrever artigo mesmo”. E você tem razão! Tornar público seu trabalho tem como função contribuir para o avanço da ciência. Compartilhar novas ideias faz com que o conhecimento evolua.

Seria perfeito se fosse o fim da história mas a verdade é que hoje publicamos para obter financiamento, conseguir uma bolsa de mestrado/doutorado/pós-doutorado, para passar em concurso, para ganhar uma bolsa produtividade, etc. E amigos, quando envolve dinheiro a coisa fica séria e as pessoas ficam cegas.

A medida usada para decidir quem vai receber a grana vem, por exemplo, do chamado fator H (nota: isso pode mudar de acordo com a agência de fomento, mas serve como exemplo para o que eu quero explorar no texto). Na teoria, ele é um indicador de quanto um cientista publicou e o quão relevante são essas publicações. A conta é simples, o fator H vai ser o número de artigos com citações maiores ou iguais a esse número. Por exemplo, se eu tenho 10 artigos, um com 50 citações e todos os outros com 2 citações, meu fator H é 2. Se eu tenho 3 artigos, um com 40, outro com 5, e outro com 7 citações, meu fator H é 3. 

Então você precisa de muitos artigos com muitas citações em todos eles para ter um fator H alto e consequentemente dinheiro e sucesso. Mas assim, a vida acadêmica é dura. Não é todo dia que você acorda e fala “Eureka! Tive uma ideia brilhante que vai revolucionar a ciência e vou ganhar muitas citações!”. Além disso, um trabalho inovador, pode levar anos de pesquisa e chegar no final sem nenhum resultado. De certa forma, é preciso se arriscar para inovar, mas isso significa que existe uma possibilidade de fracasso, o que não significa que o cientista é um fracasso. Mas a agência que vai te dar a grana (que já não é lá grandes coisas) não vai enxergar isso, e sim um número.

phd121106s

A consequência é que o número de publicações está cada dia maior assim como o número de plágios e por outro lado, a qualidade está cada vez menor. As pessoas se arriscam menos, procuram pesquisar e investir tempo no que  tem certeza que no final vai resultar em um artigo – seja ele relevante ou não. E como só muitos artigos não resolvem, entra a máfia das citações. Esquemas de citações entre revistas de publicação, entre grupos de cientistas, etc. E o verdadeiro motivo de fazer ciência e de publicar? Pouco relevante.

É claro que isso não é generalizado, existem pessoas que se deixam corromper pelo sistema e outras que se mantém integras. Mas a consequência é que fazer ciência está cada dia mais complicado e temos cada vez menos liberdade para arriscar novas ideias.

001372acd0b50ffcc5d104

O mercado ilegal que citei no começo do texto é o resultado de uma investigação da revista Science na China. Chegamos ao absurdo de um mercado onde você paga para ter seu nome em um artigo científico sem ter feito nada. Para finalizar, analisando as regras das agências de financiamento, Einstein não ganharia uma bolsa de produtividade. Acho que ele precisaria pagar pra ter seu nome em mais artigos. Parece justo?

Anúncios