Quando a Física encontra o Cinema

Eu assisti ontem o filme Copenhagen, adaptção da BBC de uma peça homônima, sobre a conversa entre Niels Bohr e Werner Heisenberg em 1941 acerca do programa nuclear alemão e que levou ao rompimento de uma forte amizade entre os dois.

Depois me peguei pensando em todos os filmes relacionados à física que conheço e resolvi fazer um post comentando brevemente todas as instâncias em que a física e o cinema se encontraram (de verdade, nada de Dan Brown por favor).

Primeiro o filme Copenhagen. Ele se encontra na íntegra no youtube, embora sem legendas. Não sei se leitores mais familiarizados com a internet não encontram uma versão legendada naqueles-tais-sites. Pela descrição da wikipédia, ao adaptar a peça vários elementos tiveram que ser cortados por brevidade, mas é interessante para ter uma idéia de como pessoas tão diferentes como o Heisenberg e o Bohr interagiam, ainda mais em momento tão delicado. Em meio a uma Dinamarca invadida Heinseberg vai até Bohr falar sobre o programa nuclear nazista. O conteúdo real da conversa é debatido até hoje, e uma das idéias do filme é justamente discutir os motivos que levaram Heisenberg até Bohr, e como o encontro foi tão dramático que conduziu a um rompimento irrecuperável da amizade entre ambos. Os personagens (agora já mortos) reconstróem o encontro diversas vezes analisando as razões e reações por detrás de cada ato.

Sem oferecer nenhum spoiler, talvez fosse relevante dizer que alguns aspectos técnicos do projeto alemão adquirem certa importância na história, o que me pareceu uma opção errônea do filme (provavelmente presente na peça também), dado que contém alguns erros que invalidam as conclusões a que chegam os personagens. Tambem senti falta de algum prólogo sobre a relação dos dois, não se vê a grande amizade que tinham, muito presente na biografia de ambos, para se entender o quão grave foi seu fim. Assim fica difícil para alguém não familiarizado com eles entender a relação entre a situação pessoal e a política, essa envolvendo um personagem de um país ocupado e um do país ocupador. Tudo isso contribui para uma história que embora não-linear tem personagens quase unidimensionais. Talvez um defeito da adaptação, não sei. De qualquer modo tem momentos brilhantes, curiosamente algumas analogias com física bem sutis que ficaram bacanas, se as vezes imprecisas.

Parece que dentro desse filme OK tem um filme ótimo que acabou não sendo feito (não que seja culpa dos atores, estes pareceram fazer um bom trabalho), mas não sei nada de cinema, quem sabe um leitor mais inteligente não possa fazer uma crítica bacana nos comentários? De qualquer modo não posso deixar de pensar se não existe alguém no Brasil com disposição e meios de pegar a peça e adaptar.

O próximo que me lembro é o mais que excelente Colliding Particles, um documentário que segue um pequeno grupo de pesquisa no meio do LHC, desde antes de sua operação até depois da descoberta do Higgs. Em 12 episódios de  15 minutos cada a produção é ótima, dá um retrato muito fiel de como se faz pesquisa e foi bacana ao retratar a pessoa que faz mesmo o trabalho, o aluno de doutorado. De longe o melhor que conheço para quem gosta de física, mesmo que não esteja interessado em física de partículas. Até mesmo a questão técnica (tanto em matéria de cinema como em matéria de conceitos físicos) impressiona.

Para contrastar com a seriedade do anterior nada melhor que Decay, o único filme que conheço feito por doutorandos e pós-docs de física. O melhor de tudo, tem zumbis! É bem divertido, e se passa num cenário em que um vazamento de radiação no LHC leva ao surgimento de zumbis e agora os alunos presos no laboratório tem que escapar com vida. Ótima sátira às idiotices em filmes regulares, com atuação bem razoável considerando que são pessoas acostumadas a fazer contas e calibrar equipamentos e não a atuar. O roteiro parece previsível mas contém umas doses inesperadas que alegram. Apenas 70 e poucos minutos de dirigido, escrito e atuado por físicos. Nao é um booom filme, mas vale o tempo.

Por fim Particle Fever ainda será lançado nos cinemas em março (não sei se no Brasil também), mas o trailer pareceu bem promissor. Obviamente descreve a descoberta do Higgs (e aí pessoal da matéria condensada, física atômica, tá na hora de correr atrás dos filmes de vocês também), e contém umas celebridades como o Nima Arkani-Hamed. Assim que eu conseguir assistir venho aqui comentar minhas impressões.

Já viu algum? Tem outro para sugerir? Ó ali embaixo, tem um lugarzinho pra você contribuir, deixe suas impressões.

PS: Lá no facebook surgiram outras sugestões. O Thiago do Simetria de Gauge apontou o filme Infinity baseado em parte da vida do Richard Feynman, em especial a época em que a sua primeira esposa estava morrendo de tuberculose enquanto ele trabalhava no projeto Manhattan. Já o professor Alexandre Suaide recomendou o Challenger, também sobre o Feynman mas agora centrando no seu final de vida e sua participação no comitê que investigou o acidente do ônibus espacial.

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