A festa “open” das publicações científicas

Hoje temos um  guest post do Felipe Penha sobre as mudanças nos periódicos científicos. Desde o século XVII quando um cientista descobre algo novo é usual que ele escreva um artigo detalhando suas observações e envie a um periódico, que edita e publica o artigo, assim o disponibilizando para toda a comunidade. Durante muito tempo este era o método mais eficiente de dar acesso geral à ciência que tínhamos disponível. Esse post comenta as mudanças nesse modelo impostas pela difusão da internet. Para uma origem histórica dessa discussão você pode ver aqui o The Cost of Knowledge, um movimento que surgiu entre os matemáticos de boicote à Elsevier, uma das maiores editoras de periódicos científicos, em razão dos altos preços praticados por ela. Atualmente mais de 14 mil pesquisadores se comprometeram a não enviar artigos, trabalhar como referre ou editor para a Elsevier. Para uma discussão sobre o mercado de publicações chinês você pode dar uma olhada nesse post da Camila

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Neste post, vou explicar as novas tendências de abertura das publicações científicas, que recebem o nome “open”, à semelhança das famosas festas “open bar” que tantos gostam.

 

Exemplo de festa open bar, no Cern.

Exemplo de festa open bar, no Cern.

Muito vem mudando com a internet e, através desta, os cientistas vêem perspectivas de se libertarem da rigidez das publicações privadas. Do outro lado do muro, as editoras: elas cedem parcialmente, com novas revistas “open access” (acesso livre) que requerem que os autores paguem uma quantia generosa para que seus artigos fiquem online para acesso gratuito, por toda a eternidade. Existem ideias ainda mais inovadoras que o “open access” sendo postas em práticas, como o “open peer review”, que seria o caso em que as avaliações dos artigos científicos são abertas ao público.

Processo de publicação usual através de um exemplo

Como doutorando em Física na Unicamp, eu tenho uma atividade extra: ajudo a cuidar da revista Physicæ, no momento como editor-chefe*. Um autor qualquer submete um artigo em nossa revista e o editor-chefe tem a tarefa de avaliar se o mesmo se encaixa nos padrões da revista, em questão de qualidade e conteúdo. No caso do conteúdo, o artigo deve se encaixar em uma das áreas englobadas pela revista, por exemplo, Física ou Geociência. A revista pode também ter critérios quanto à inovação e originalidade. Isto tudo faz parte da chamada política editorial. Sendo aceito para avaliação pelo editor-chefe, este encaminha o artigo a um editor que é um membro do chamado editorial board (corpo editorial). No caso de nossa revista, os editores são sempre pós-graduandos da Física, de preferência doutorandos. O editor tem o trabalho de procurar dois referees (avaliadores), de preferência da mesma área do artigo. Aqui as coisas são mais caseiras e batemos nas portas dos candidatos e temos preferência por pessoas da própria Unicamp. Em uma revista qualquer, a maioria dos referees são contactados à distância. A partir daí inicia-se o processo chamado de peer review (revisão por pares): o referee revisa o artigo e pede correções, processo este que termina quando ambas as partes concordam com o resultado. O prazo para as avaliações pode variar muito e a revista pode ter regras em relação a isso. No nosso caso, e acredito que a maioria das revistas funcionem assim, temos um sistema online que facilita a comunicação e permite controlar as etapas da avaliação.

Normalmente, nem os editores nem os referees recebem dinheiro por suas tarefas. Um dos pontos chave para este texto é que, como regra geral, o processo é duplo-cego: o autor não sabe a identidade do referee e vice-versa. Os únicos que têm a informação das identidades são o editor-chefe e o editor, o qual intermedia o processo de avaliação. Este processo é claramente falho, pois quando você faz parte de uma subárea restrita, você sabe o que cada grupo faz e o estilo de seus trabalhos. Neste caso, o referee sabe quem é o autor, ou pelo menos de que grupo faz parte. O caso inverso também pode ocorrer: o autor infere quem é o referee pelo estilo de suas correções e por pedidos de citação de seus trabalhos. Ao meu ver, quem sai perdendo é sempre o autor, que pode ser alvo de algum tipo de comportamento tendencioso e exigências estranhas. O processo é secreto para o público externo, o que significa que nunca saberemos o que acontece de fato nessa “deep web científica”. Muito tempo depois, nós acabamos sabendo de histórias curiosas de avaliação, que acabam se tornando anedotas históricas. Por exemplo, Einstein vs. Physical Review.

Depois que um referee aceita o artigo como finalizado, o editor o passa para o próximo referee, que fará mais refinamentos. O número de referees não segue uma regra geral e pode depender se um deles exige que o artigo seja avaliado por um referee adicional. Na Physicæ são dois: o primeiro doutorando e o segundo professor. No fim, o editor-chefe faz o trabalho final de verificar a formatação e cuida do processo de publicação, atribuindo um número DOI ao artigo (vide nota de rodapé).
No caso da Physicæ, o artigo fica online, podendo ser acessado gratuitamente por qualquer pessoa. Já no caso das revistas das grandes editoras, os downloads costumam serem pagos. Quando você está dentro de uma universidade o acesso pode ser gratuito, pois alguém está pagando para você ter acesso a eles. Em instituições brasileiras, o portal da Capes garante o acesso a muitas das publicações.

O que é “open access” e arXiv?

“Open access” é justamente o que expliquei sobre a Physicæ, no parágrafo anterior: acesso gratuito e ilimitado às publicações. O arXiv é o exemplo extremo disto: é open access e os autores fazem submissões sem terem que passar pelo processo de peer review.

Na prática, o que acontece é o seguinte: materiais que não seriam aceitos para publicação em revistas famosas vão parar no arXiv, como teses, relatórios, artigos mal escritos e que não foram aceitos em outro lugar, etc. Os artigos de qualidade e confiáveis são aqueles que foram publicados em uma revista científica que faz o peer review, ou aqueles que estão em processo de avaliação. Nesse último caso, não se sabe se de fato o artigo será aceito na revista, então isto não é garantia de qualidade.

Para os artigos que já foram publicados em outro lugar, o arXiv se torna uma ferramenta para que os leitores possam burlar o caminho usual em que se teria que pagar para fazer o download. Outro ponto, é que nada garante que as versões do arXiv e da revista em que foi publicado sejam iguais em conteúdo (em formatação geralmente são diferentes, o que não importa muito). Eu geralmente verifico se as versões são iguais, mas essa comparação não é possível quando a única alternativa é o download gratuito no arXiv.

Não só eu, mas muitos ficam incomodados com o modo pelo qual o arXiv funciona, pois não existe peer review. De fato, atualmente existe uma onda de revistas open access que incluem a avaliação por pares. Um movimento que dá as diretrizes para esse tipo de revista é a Budapest Open Access Initiative.

“Do outro lado do muro”, o qual os autores desejam deburrar, as editoras estão criando cada vez mais revistas no modelo open access, no entanto os autores são obrigados a pagar um bom dinheiro para garantir o livre acesso permanente de seus artigos. Exemplos disso são o Physical Review X e o New Journal of Physics. Vários outros exemplo da editora Elsevier encontram-se no seguinte endereço Open Access Elsevier.

 

Pesquisadores querem derrubar o muro construído pelas editoras. Acesso livre! Woohoo!

Pesquisadores querem derrubar o muro construído pelas editoras. Acesso livre! Woohoo!

Se estiver interessado em saber um pouco mais sobre “open access”, eu indico fortemente este vídeo do PHD comics: Open Access Explained!.

O que é “open peer review”?

O “open peer review”, como já disse anteriormente, é a abertura  do processo de avaliação. Ao meu ver, esta ideia pode significar diferentes níveis de radicalização. O mais brando seria a transparência da avaliação, tornando-a disponível online e possivelmente mostrando as identidades dos editores, avaliadores e autores. Uma ideia seria colocar todas as versões que o artigo teve até a versão final publicada. O nível médio seria que tudo isso fosse feito em tempo real. Finalmente, o nível hard seria aquele em que adicionalmente a tudo isso, outros cientistas pudessem opinar e participar da avaliação em tempo real. Um exemplo de open peer review sendo efetivamente posto em prática é descrito em matéria da nature.

Uma versão disto já acontece com o arXiv, pois em muitas áreas os autores submetem os artigos no arXiv enquanto esperam a avaliação das revistas científicas. Nesse meio tempo, os autores acabam recebendo emails de colegas com sugestões, correções e até avisos de que aquele material não é original. Acontece que isso é feito de forma desordenada e nada disso fica registrado como parte da avaliação. O que você vê lá é apenas uma lista com diferentes versões pelas quais o artigo passou. Não queremos algo tão obscuro assim, queremos?

Questão de opinião

A minha visão de um mundo “open” ideal é o seguinte: revistas somente online (para quê papel?), sem fins lucrativos, open access e open peer review em toda sua plenitude (lembre-se do nível hard de que falei), com o detalhe de que um público apenas de cientistas cadastrados pudesse participar da avaliação. Eu acho que este último ponto evitaria o overflow de comentários de leigos. Agora, e se você é um cientista independente (nunca vi um sequer), como nos filmes? Você provaria sua expertise com um mínimo de artigos, já que ninguém deve avaliar artigos sem ter experiência comprovada em publicar os seus próprios.

Um ponto que não explorei antes e que é fundamental para alguns é o do financiamento da pesquisa. Por que um governo, e mais fundamentalmente seus contribuintes, pagam bilhões de dólares para financiar a pesquisa científica se o objeto final, o artigo (além de possíveis patentes), é algo que o cidadão comum deve pagar para poder acessar? Fica a pergunta no ar.

Eu concluo, dizendo que vivemos em uma época espetacular em termos de abertura da ciência. É triste ver como ainda existe uma certa resistência a esse tipo de ideia, principalmente por parte das editoras. Sim, as editoras precisam garantir seu lucro. No entanto, nós cientistas precisamos garantir o avanço da ciência da forma mais poderosa possível. E não existe nada, absolutamente nada, mais poderoso que a internet e toda a abertura que trás consigo.

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Felipe C. Penha
Bacharel e mestre em Física pela USP São Carlos. Atualmente está no segundo ano de doutorado em Física pela Unicamp, estudando Física de Neutrinos. Participa da revista Physicæ, mantida pelos pós-graduandos do Instituto de Física Gleb Wataghin. Mais informações aqui.

 

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*A Physicæ é uma revista indexada, o que significa que cada artigo possui um número, chamado de DOI, que o identifica. Com esse número, faz-se a referência cruzada: os artigos citados recebem a informação de que foram citados e saberemos de todos os artigos que citarem o artigo publicado em nossa revista.

 

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