A “memeficação” da Ciência

Você aí, que acompanha blogs de divulgação, já se perguntou por que fazemos isso? Notoriamente pós-graduando e pós-doutorandos não são pessoas com muito tempo livre. Frequentemente falamos sobre temas que não são nossa especialidade, de modo que por detrás de cada post existem alguns dias matutando sobre o assunto, horas estudando para entender e muitas vezes falando com professores e trocando emails com alguém que faça pesquisa na área. Depois mais um tempo para pensar em como falar sobre o tópico evitando os detalhes técnicos sem deixar de ser honesto, e ainda o tempo para escrever de fato aqui. O que explica o intervalo, as vezes grande, de tempo entre um post e outro. Mas se dá tanto trabalho qual a motivação de tudo isso?

Antes uma pequena digressão. Olhe atentamente para o seu computador. Para a mesa que apoia ele. Para a caneca e o café dentro. Olhe para sua própria mão. Todas essas coisas são feitas de átomos. Carbono, oxigênio, nitrogênio, etc. Tudo com o que você interage diariamente é feita de objetos minúsculos idênticos, apenas arranjados de modo distinto e com enormes vazios entre eles.Você consegue olhar para sua mão e imaginar além do tecido, do sangue, das células e mitocôndrias, além do DNA e até os átomos, os pŕotons, nêutrons e elétrons, os quarks, o Higgs e (talvez) além. Um cético poderia duvidar de que isso fosse verdade quando posto assim.

Lagrangiana do Modelo Padrão. Um dos termos está errado, alguém sabe porque?

Lagrangiana do Modelo Padrão. Um dos termos está errado, alguém sabe porquê?

Olhe para o céu azul do lado de fora da janela e o sol amarelo que ilumina tudo. Se você fosse para o espaço descobriria que o sol na verdade brilha branco (e portanto o superhomem deveria perder todos os seus poderes fora da atmosfera). No século XVIII o Lorde Rayleigh estudou como a luz, uma onda eletromagnética, se comporta ao interagir com objetos. Ele descobriu que quando o objeto é muito menor que o tamanho da onda a luz é muito sensível na interação. As menores ondas, como o azul, são muito espalhadas e as maiores ondas, como o vermelho, espalham muito pouco. Por outro lado quando o objeto é das mesmas dimensões da onda então o espalhamento ocorre igualmente, o branco continua mais ou menos branco. Da mesma forma se existem vários objetos de tamanhos variados a interferências entre os diferentes espalhamentos mantém a luz branca. Assim se o céu é azul é porque o ar é feito de pequenas partículas muito menores que o tamanho da onda da luz visível, ao passo que as gotículas de água das nuvens refletem uma cor branca. Então o azul do céu é (uma prova) um indício de que o mundo é feito de átomos.

xkcd

xkcd.com/1145/

Algumas pessoas leram o parágrafo anterior e acharam essa informação completamente irrelevante. Por outro lado, escrevi isso pensando que é realmente incrível que algo tão banal na nossa vida (como o céu ser azul) nos leve a uma conclusão tão profunda (a existência de átomos). Parece aquela sensação que temos quando descobrimos uma música ou uma banda nova e nos apaixonamos por ela. Na hora ficamos muito empolgados, escutamos várias vezes seguidas e queremos compartilhar com todo mundo esse sentimento.

Entendeu a resposta da primeira pergunta lá em cima? Acho que ficou claro que divulgação científica não é um hobby para nós, e sim algo que fazemos passionalmente. Não estamos aqui querendo ensinar nada para ninguém, mas sim dividir uma experiência que nós temos, algo que achamos profundo e que entristece ver quantas pessoas descartam como algo de caráter apenas prático e técnico.

No meio de divulgação somos frequentemente associados a outros tipos de páginas. Um tipo bem popular são os “memes de ciência”, como a página I ‘fuckin love science’. Não que haja algo de errado com isso, meramente que não se comunica ciência com uma imagem e um pouco de sarcasmo. Um dos valores de entender ciência é que o processo de entender é uma experiência transformadora, ele muda permanentemente o seu modo de se relacionar com o mundo a sua volta. Se existe alguma ironia real nesses memes é que não raramente as pessoas que ‘fuckin love science’ não se dão ao trabalho de procurar entender nada além das analogias mais simplórias, e muitas vezes errôneas. Elas nunca passam pelo processo de mudar a sua forma de ver o mundo.

Outro caso típico são páginas dedicadas ao ceticismo, aquelas que atacam astrologia, numerologia, etc. Em português a mais famosa é provavelmente o Universo Racionalista. Entenda bem, não temos nenhuma simpatia pelos diversos “gurus” e congêneres, mas existe uma diferença muito grande entre ceticismo e ciência. Nós não temos a pretensão de separar o mundo em verdades e mentiras, estamos apenas tentando compartilhar certas coisas que aprendemos. Essa é a diferença entre ceticismo e ciência, o primeiro vê o segundo apenas como um instrumento. Para eles o que importa é um resultado ou outro e não o que aquilo significa. Não surpreendentemente as páginas de ceticismo costumam interpretar equivocadamente experimentos e teorias.

O que está por trás de páginas como essas é o despreparo e o descompromisso com o que nós acreditamos ser divulgação científica. Escrever sobre ciência vai muito além de reproduzir uma notícia. O processo que descrevemos no início, de aprendizado e reflexão na hora de escrever um texto, nos transforma e é uma experiência enriquecedora. No fim, é isso que tentamos transmitir para nossos leitores. Não importa quantas pessoas leram ou deixaram de ler, mas se pelo menos um leitor agregou algo com a leitura que não será esquecido 30 segundos depois.

Podemos observar que a ciência (em particular, a física) ganhou um certo hype nos últimos tempos devido à notícias sensacionalistas – que se espalham rapidamente devido as redes sociais – e ao seriado “The Big Bang Theory” – que mostra uma vida acadêmica infinitamente mais tranquila que a realidade. Apesar do efeito positivo de aumentar em massa o interesse e o contato com a física de fronteira, observa-se o nascimento de uma geração de pseudocientistas por conta de uma certa banalização do ‘fazer ciência’. Hoje em dia, a informação é abundante e de fácil acesso, com um clique você pode ler um livro técnico sobre ‘Teoria Quântica de Campos em Espaços Curvos’, um artigo curto dizendo o que o Hawking falou ou deixou de falar na semana passada ou um texto científico voltado para leigos. A contrapartida é que algumas pessoas aprendem o jargão, as palavras-chave de alguma área, e automaticamente começam a se portar como especialistas. Como se isso não bastasse, esses focos de desinformação atraem uma multidão que também só buscam o hype de compartilhar uma equação bem complicada em uma imagem do Facebook e que se esquece que o aprendizado é consequência de muito esforço e dedicação.

meme

E qual é a moral dessa história? Existe uma diferença entre saber o que é verdade e por que algo é verdade. Divulgação deveria ser sobre a segunda e não sobre a primeira. Outros podem fazer diferente, mas, para desencargo de consciência, nós não apoiamos esse tipo de postura nem concordamos com a “memeficação” da divulgação científica e outros congêneres que usam de sarcasmos para atacar o que discordam ao invés de falar sobre o que concordam.

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